Afogamento ou solidão
Há
alguma semelhança entre a solidão ou o afogamento, na água, claro. Em ambos os
casos teremos uma espécie de perdição! Ambos estão perdidos! Os meios onde
ambos estão, os fluidos nos quais ambos estão mergulhados, são diferentes! Densidades
diferentes! Muito diferentes.
A
densidade do fluido que leva à solidão além de muito grande, tem também, também
decorrente dessa fluidez, uma viscosidade igualmente grande!
A
densidade, por definição dela mesma, leva-nos a prever o seu aumento, com o
aumento da população, da densidade populacional da urbe na qual se está
mergulhado! Por isso é que se morre de solidão na cidade! No mar também! Só que
não seria de esperar na cidade! Não seria de esperar que morresse tanta gente, mas é!
No
mar se morre afogado, na cidade também!
No
mar quando se morre, morre-se porque os pulmões se enchem de água, não podendo
fazerem-se as trocas necessárias de oxigénio, para se viver, na cidade também!
Tanta
água, tanta gente.
A
grande diferença acontece que no mar, com tanta água, há vida! O homem morre
lá, porque não pertence ao meio! Na cidade com tanta gente, não há vida, por
isso se morre lá. O Homem morre porque, não tem com quem, não tem o que, não
tem como, trocar! Porque vida é troca! Se não tem troca, não tem vida! Na água
morre afogado porque não pode trocar «ar-velho» por «ar-novo».
Alguns
náufragos, encontram ou criam, ou inventam, algumas ilhas. Lá se encontram e se
refazem de seus esforços, das suas viagens à volta das ilhas, umas vezes
verdadeiras, outras vezes fictícias (hoje dirão virtuais – não é a mesma coisa)!
Para cada ilha, seus náufragos! Por vezes, estes e outros, igualmente iguais a
estes, mas de outras ilhas, também semelhantes a estas outras, se encontram.
Encontram-se em ilhas quase continentes, com ideias parecidas; como são muitos,
e como as voltas e os esforços são maiores, também a distância em tempo também
são proporcionais. São maiores! No fim dos encontros, ficam felizes!
Despedem-se todos de todos, e até à minha volta, à volta… uns voltarão, outros
não! Morrerão cansados! De qualquer forma voltarão sempre à condição de náufragos
encontrados em ilhas.
Sobrevivem
porque as densidades nas ilhas, é bem menor do que nos «mares» dos mundos!
Estes «mares», bem mais densos de sargaços, e de sargaços bem densos, tudo com
grande viscosidade, e grande resistência à deslocação, ao movimento.
Nas
cidades, a solidão do Homem, leva-o por necessidade de sobrevivência ao seu
isolamento, ao voltar-se para si próprio, e acaba não saindo do lugar onde está!
Não anda! Não troca! Se não troca, em cada instante seguinte ao anterior tudo
está, estático!
Só os
memoriais, os monumentos têm «vida» na sua estaticidade. O «parar» deles, é
marcar que ali há, porque houve, vida.
Mas
cuidado, não é bracejando na água que se sobrevive do afogamento! Não é falando
sem tino e sem saber orientado que se pede a «Solidão».
Perdido num mar sem
água, numa cidade sem gente.
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