quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Afogamento ou solidão



                    Afogamento ou solidão

Há alguma semelhança entre a solidão ou o afogamento, na água, claro. Em ambos os casos teremos uma espécie de perdição! Ambos estão perdidos! Os meios onde ambos estão, os fluidos nos quais ambos estão mergulhados, são diferentes! Densidades diferentes! Muito diferentes.
A densidade do fluido que leva à solidão além de muito grande, tem também, também decorrente dessa fluidez, uma viscosidade igualmente grande!
A densidade, por definição dela mesma, leva-nos a prever o seu aumento, com o aumento da população, da densidade populacional da urbe na qual se está mergulhado! Por isso é que se morre de solidão na cidade! No mar também! Só que não seria de esperar na cidade! Não seria de esperar que  morresse tanta gente, mas é!
No mar se morre afogado, na cidade também!
No mar quando se morre, morre-se porque os pulmões se enchem de água, não podendo fazerem-se as trocas necessárias de oxigénio, para se viver, na cidade também!
Tanta água, tanta gente.
A grande diferença acontece que no mar, com tanta água, há vida! O homem morre lá, porque não pertence ao meio! Na cidade com tanta gente, não há vida, por isso se morre lá. O Homem morre porque, não tem com quem, não tem o que, não tem como, trocar! Porque vida é troca! Se não tem troca, não tem vida! Na água morre afogado porque não pode trocar «ar-velho» por «ar-novo».
Alguns náufragos, encontram ou criam, ou inventam, algumas ilhas. Lá se encontram e se refazem de seus esforços, das suas viagens à volta das ilhas, umas vezes verdadeiras, outras vezes fictícias (hoje dirão virtuais – não é a mesma coisa)! Para cada ilha, seus náufragos! Por vezes, estes e outros, igualmente iguais a estes, mas de outras ilhas, também semelhantes a estas outras, se encontram. Encontram-se em ilhas quase continentes, com ideias parecidas; como são muitos, e como as voltas e os esforços são maiores, também a distância em tempo também são proporcionais. São maiores! No fim dos encontros, ficam felizes! Despedem-se todos de todos, e até à minha volta, à volta… uns voltarão, outros não! Morrerão cansados! De qualquer forma voltarão sempre à condição de náufragos encontrados em ilhas.
Sobrevivem porque as densidades nas ilhas, é bem menor do que nos «mares» dos mundos! Estes «mares», bem mais densos de sargaços, e de sargaços bem densos, tudo com grande viscosidade, e grande resistência à deslocação, ao movimento.
Nas cidades, a solidão do Homem, leva-o por necessidade de sobrevivência ao seu isolamento, ao voltar-se para si próprio, e acaba não saindo do lugar onde está! Não anda! Não troca! Se não troca, em cada instante seguinte ao anterior tudo está, estático!
Só os memoriais, os monumentos têm «vida» na sua estaticidade. O «parar» deles, é marcar que ali há, porque houve, vida.
Mas cuidado, não é bracejando na água que se sobrevive do afogamento! Não é falando sem tino e sem saber orientado que se pede a «Solidão».


Perdido num mar sem água, numa cidade sem gente.




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