segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Na tua terra matam velhos e expulsam novos




 Na tua terra matam velhos e expulsam novos

Na tua terra matam velhos e expulsam novos

Na grande reunião que é hábito efectuar-se por estas redondezas  por estas alturas dos anos, fizeram muita questão que eu estivesse presente! Fiquei lisonjeado! E não pude negar-me, o que seria muito, muito grave!

No tempo certo, todos estávamos juntos, esperando a Lua subisse acima da linha que separa o céu azul escuro do montes brancos da neve e dos reflexos da luz da Lua sobre ela, que à noite torna tudo dificilmente descritível. Tamanha beleza por vezes embriaga! Foi assim.

A Lua subiu, apareceu e o mais velho de todos deu por aberta a reunião.

Todos em volta se congratularam-se comigo, porque ao fim de muito tempo eu vim de volta para junto deles. Expliquei-lhes que havia passado algum tempo na terra, havia ido a algumas mais que gostei de as ver e visitar, e que com o tempo lhes contaria.

Ouviram, em silêncio. A escuta nestas terras é atendida com uma atenção que eu já me havia esquecido. Aqui, ouvir é aprender. E como eu viera de outras terras, as minhas falas pareciam lições. A minha vergonha aumentava…

As conversas iniciaram-se por mim.

Diga, explique-nos, a todos, porquê na tua terra matam os velhos e expulsam os novos?

Ouvi. Tive a sensação que me haviam estoirado uma petardo aos meus ouvidos. Na minha terra matam os velhos e expulsam os novos!? 

Olhei para todos, à procura de uma interpretação e de uma explicação para a pergunta.

Pigarreei, tossi, como se fosse iniciar o discurso da minha defesa num tribunal!

Ao fim de uma eternidade que me pareceu não acabar mais, como convém a uma eternidade, comecei falando e explicando, que a minha terra era mais uma vítima de uma coisa chamada de conjuntura económica internacional, andava a afectar meio mundo e que irá afectar outro meio, dentro de pouco tempo. 

Ouviram-me. No final disseram que não entendiam! E não entendiam porquê que os velhos eram mortos e expulsavam os novos! Eu continuava sem saber explicar o inexplicável, mas teria que o fazer. Ouviram-me com toda atenção, e explicaram-me que para eles, os velhos eram um repositório de saber que era preciso guardar, e aprender com eles, e os novos que seriam os velhos de amanhã, teriam que escutar e aprender com eles, para continuarem.

Fiz como eles fazem, e que já venho fazendo. Ouvi-os, escutei-os. No final tenho que dizer que fiquei da única maneira admissível: cabisbaixo e envergonhado!

A reunião continuou, ninguém mais me abordou no assunto. Já a meio da reunião perguntaram-me, hábil maneira de me lavarem das minhas próprias incapacidades, como eu faria para ajudá-los a arranjarem algumas questões! Eu aceitei. Que alívio! Confesso que aqui todos são de uma excepcional amabilidade para comigo.

A reunião acabou. Vim para a minha casa. Instalei-me, dei inicio à preparação do meu chá da noite. Aquela reunião deixou-me incomodado! As perguntas que me fizeram, ainda mais eu fiquei.

Fiquei porque na verdade as perguntas representavam verdades que todos viam e ninguém na minha terra falava. Nunca tantos reis andavam nus, tão publicamente e não havia uma, uma única, criança que pergunte porquê que os reis andam sem roupa! 

Chá pronto. 

Fiquei pensando. Na verdade o que acontecia era uma eutanásia organizada, metódica, um genocídio selectivo, uma cozedura em banho que ia de maria até maneis… Era uma opção económica! Retirando-se os medicamentos aos velhos, eles vão-se acabando, morrendo, vítimas da crise, culpa sem  nome, sem identificação, de cada vez que um deixava de existir, não mais se gastaria com esse número. A expressão, a fórmula, tudo vítima da crise, nunca ninguém disse quem era a crise, nem onde estava, subindo os preços, os custos de cada remédio, e baixando toda e qualquer ajuda, por causa da crise, eles, por sua e única responsabilidade não tomariam mais … um dia na disputa, a doença venceria… Pobre dele, se não tivesse deixado de tomar os remédios ainda hoje cá estaria! Mas os remédios comprados antecipadamente, forma sincopada de os obter, que tomava, como nome de previdência?  AH! isso foi em outros tempos!

Eutanásia! Penso eu! Esta não precisa de ser executada a tiro de pistola! Pareceria feio, seria caro (seriam precisas muitas balas), e a opinião do mundo não olharia de muito bom grado. Um genocídio, uma  eutanásia selectiva! Só morre velho, ou desgastado! (coisa análoga). Afinal uma espécie de genocídio completo. Como é uma coisa específica, só um nome específico lhe cabe: VELHOCÍDIO! Enquanto se VELHOCIDIA, lançam-se grandes discussões em torno do problema da saúde! Todos falam dela, só falam, ninguém pensa nela, porque enquanto isso, as coisa vão acontecendo, vão se executando sem alarido.

É bom que a “coisa” aconteça só agora, porque amanhã os novos de hoje serão os velhos amanhã! Nesse tempo, como o tempo será já outro e já não haverá tantos velhos a VELHOCIDIAR, mudam-se as vontades. 

Agora que os velhos estão já VELHOCIDIADOS, põe-se uma outra questão!

Sobra gente nova! 

A questão é bem mais grave do que parece. Esta gente nova, sabe demais. Pensa demais. Fala demais. Esta gente nova é ainda produto do tempo que as escolas ainda não tinham sido suficientemente destruturadas. Em consequência aprenderam a pensar. Ainda não estão cabalmente “moldadas” à nova maneira.

Esta nova gente nova, não pode ser suicidada, além do mais pode até ser vendida. Nos tempos dos escravos, nenhum “senhor”  comprava escravo, homem velho; só gente nova! Pode até “exportada”, tal como os do tempo do negócios da “Mina” e do rio do sal, ou … do “Senegal”… bons territórios de gente para trabalho!!! Hoje poderemos exportar bons engenheiros, bons médicos, e quiçá até bons tradutores (que viva a normalização dos idiomas), porque estes todos são do melhor que há no mercado, e a bom preço! 

Criam-se secretarias e serviços de ajuda! De “ajuda” à exportação! Quero dizer, ajudas à emigração! Às vezes funcionam bem, convém que por vezes as coisas funcionem bem, para dar credibilidade às demais acções…

Muitas funcionam bem. Eles vão, acabam domesticados, há sempre alguém, que não levando novas de vento algum, vão” pedindo” aos que emigraram que devem mandem dinheiro para o país que sempre os “ amou”, que sempre os chorou, já que não havia crocodilos, sobravam políticos… O grande problema acontece quando nem todos se deixam domesticar ou enredar nessas trapacices.

Não fará mal! Serão poucos, os demais cairão na conversa da Pátria, e virão! O grave é que esses que não voltam são os mais valorizados. O país cuidadosamente fê-los sair. Lá, muito longe, não incomodarão nada os que cá, nada sabem e nunca souberam porque nunca trabalharam, e, tudo querem (e às vezes conseguem) mostrarem que são os “salvadores” da pátria, esta que já não existe, diluída, dispersa, olvidada, tudo a bem do progresso e da tal “dívida”, coisa que nunca ninguém soube o que era ou que foi …

De facto, quando eu próprio não sou capaz de me explicar o que foi e o que é, porquê que na minha terra matam os velhos e expulsam os novos, como serei eu capaz a um povo suficientemente educado correcto e guardião dos seus velhos, estes que lhes deram origem e saber, digo eu e a mim próprio, como serei eu capaz de lhes explicar?

Agora entendo os suicidados. Dói menos os que se terminam rápido, e por vontade própria, do que os  que são lentamente, por vontade imposta. 

Assassino, não é só aquele que puxa o gatilho da pistola, como aquele que faz que ninguém se possa salvar tendo ele a salvação à mão!

Esclavagista não é só aquele que transaciona escravos, como aquele que proporciona os caminhos da subserviência laboral, intelectual (outra forma de trabalho) ou ainda outras formas cuja modernidade inventou, para colmatar a tal dívida que nunca ninguém soube o que era ou foi.








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