domingo, 14 de março de 2010

Qúelaqúela

Qúelaqúela

A história é antiga. Talvez só agora comece a ter os seus con-tornos definidos, porque o tempo apaga as formas, e lima as arestas e deixa só os contornos necessários.

Quando eu «enganava» os pais, eu ia passear de automóvel. Queria eu «ante-sentir» o que seria eu com um automóvel! Tomava direcção do campo. Ia pela estrada. A estrada era então única. Sempre que passava por volta do quilómetro 57, eu reparava numa pequena elevação que existia ao lado da estrada! Essa elevação parecia que existia só para obrigar a estrada a ter aquela volta! Para mim sempre existiu, lá no alto um homem acocorado, olhando os carros que passavam. Aquela figura tornou-se indissociável daquela elevação. Do hábito resultou que nos acenávamos sempre que passava por lá.

Um dia quis conhecê-lo. Parei o carro. Fui até lá ao alto, não muito alto, mas o suficiente para se enxergar todo o horizonte, aquele horizonte chegava, não era preciso mais! Cumprimen-tei o homem. Inclinei a cabeça. Ele fez igual. Perguntei o quê e porquê que estava sempre ali. (Na verdade não era da minha conta saber, mas … ). Ele respondeu-me que olhava os carros. A minha cara deve ter sido muito estranha! (Nessa ocasião passou um carro!). nem o condutor do carro, nem ele se acenaram, nem o condutor o viu, deduzi por isso que eu deva ter sido uma excepção, mas o homem se acocorou, arrumou uma pedritas que tinha no chão! O chão onde ele estava, e sempre acocorado, mostrava uma limpeza atroz. Tinha umas pedritas arrumadas ou à esquerda ou à direita! Nesse instante o homem aproximou-se de algumas coisas que tinha junto de si, tomou uma folha de papel, e fazendo aparecer um tocozinho de madeira, vi então que era o sobraria daquilo que fora antes um lápis, escreveu o que entendeu que devia escrever. Olhei, vi, e senti que quem escreve com este material desta forma, sabe escrever! Despedi-me disse o meu nome, e perguntei o dele! (Não deixara de ter sido faltoso na educação, é costume à chegada dizer-se o nome de cada um… ele fez, eu não…). Ele disse então, repetiu: Qúelaqúela. Foi fácil fixar o nome!

De regresso a casa, resolvi, pensando «eu com eu», quando lá passasse levar-lhe-ia uma resma de papel, um lápis um afiador, e uma borracha de safar! Como vinha contente. Iria salvar o mundo !!!

A semana demorou a passar! Como foi difícil na vez seguinte enganar os pais para sair mais um vez com o carro! Agora seriam todas as semanas? Mas consegui! E assim parti eu com os meus presentes… após a minha chegada, após os nossos cumprimentos, entreguei as minhas encomendas… despedi-me, como sempre, e regressei. Várias vezes por lá passei, acenávamos sempre! Sabia que Qúelaqúela estava por ali tomando as suas notas. Era um prazer meu sabê-lo lá!

Alguns tempos voltei! Foi difícil encontrar o lugar. No lugar onde sempre estivera Qúelaqúela, não existia mais. Qúelaqúela não estava mais. Aqueles horizontes longes, muito longes não eram mais vistos do alto daquele lugar! Aquele homem, que eu não sabia a idade e nem tão pouco ele, que pertencia ao tempo, que guardava consigo as notas da sua historia, que não já só eram dele, não estava lá. Nesse lugar passava agora uma belíssima estrada de enormes riscos brancos em cima do enorme risco preto.

Uma estrada cheia de nada, onde não havia nada, não passa-va nada, ninguém ia, ninguém vinha, atropelava agora, por cima, o lugar cheio de história, cheia de vida. Nem as folhas escritas voavam sequer ao sabor do vento. Diziam que o pro-gresso passava ali.

Os assassinos do tempo e da vida e da historia
serão um dia glorificados e honorificados
Não existirão mais Qúelaqúela.

2 comentários:

Jorge da Paz Rodrigues disse...

Interessantíssimo.

Mas meu caro Vadium não se preocupe por não ver o "Qúelaqúela", pois ele está lá!

Pode é estar mais acima, quiçá acima da linha do horizonte e ser difícil vê-lo, mas creio que ele está lá, como sempre esteve, pos mais auto-estradas que construam...

è como a nossa consciência, às vezes não avemos, mas ela está lá...

Fraternal abraço do Jorge da Paz

Unknown disse...

Acho que o Qúelqúela levou o meu Vadium embora. Sentirei saudades, mas quem sabe um dia encontro com ele em outras terras...
Um beijo da Cláudia.