
Todorov inicia assim o seu texto sobre a memória apagada.
Os regimes totalitários do século XX revelaram a existência de um perigo antes inesperado: a supressão da memória.
Só acontece por entre os homens.
Pois entre os animais, eles guardam a memória.
Guardar a memória é uma forma de manter a existência, saber de onde se vem e para onde se vai.
Os animais, os não humanos, guardam-na de forma própria, não interessa qual, são as suas.
Cuidar dos mortos é também uma forma de guardar memória. Todo o animal guarda, até o homem.
Aconteceu este texto porque andava passeando pela floresta desta terra que ainda não a abandonei, a caminho de Ali (capital do Paralistão). Onde os bichos grandes assaltam mais e mais forte os demais, coisa que nem sempre acontece nas outras florestas. Pois é. Aqui acontece.
Mas eu vi. Eu vi que num lugar, um bando de pombos cerimo-niava um funeral. Os pombos não voam em bandos grandes, em bandos de um, quiçá dois ou pouco mais. Ali (lugar, e não a tal capital) um bando olhava de um alto, um pombo caído, onde um outro o chamava, pela sua forma habitual. Alguns outros cercavam-os, mesmo do alto. Cumpria-se o funeral. Eu ali nada ou coisa nenhuma podia fazer. A minha homenagem aos que ‘sabem’ teria que ficar por ali. Na fotografia.

Tive vontade chorar! Não pelo pombo caído, que também merecia, mas porque na minha terra, toda a gente se esqueceu de tudo, até se esqueceu do esquecimento!
Foi assim que me lembrei deste Todorov.
Há sociedades que andam com velocidades mais lentas. Não significa que andem melhor! Significa que chegam depois! Assim, algumas, só no fim do Séc. XX ou no inicio do Séc.XXI, é que tentam produzir o que algumas já se esqueceram do que fizeram há quase meio século atrás.
Não me esquecerei. Povo que não guarda memória não tem existência.
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