quarta-feira, 22 de junho de 2011

Otenos

Otenos

Às vezes Às vezes quando escrevemos há um «outro» que também escreve, este outro não está sob nosso controlo absoluto, vai andando e escrevendo a solo, como se fosse um outro que não o próprio. E de facto não é. Foi assim que aconteceu. Intercaladamente ao que ia sen-do escrito, outra coisa ia sendo também. Parecem coisas diferentes. Sê-lo-ão? Quem sabe que não!

Costuma-se dizer que Lisboa é a terra dos que não têm terra!
De quando em vez, alguns dizem que vão à terra, ou de férias, ou «ver» a casa da família! E os que são de Lisboa, vão onde? Vão à «Terra»! os de Lisboa para irem à «Terra», terão que sair da cidade por uma porta e entrarem, então, de regresso por uma outra! terão ido de Lisboa a Lisboa. Terão ido à «Terra».

Temos estado a pensar que os que vão, não são de cá! Os de cá vão, para cá.

Brasília

Não parida, mas pensada.
Não semeada, mas construída.
Não escondida, mas resgatada.

Veio tudo isto a propósito que nunca ouvi alguém se referir que nas «férias» iam a casa. Mas após algum tempo fora do lugar delas, voltavam a «casa»! é que as ideias de casa, féria ou férias, ganharam novos valores, novas interpretações! Não sei se boas ou más! Só novas! Vou á casa, volto à Casa... tudo quer dizer então que tendo-se vivido uma vida na cidade, não se pertence lá, só se esteve de passagem. Só os que nasceram lá, só os que não têm terra terão que se limitarem a «ver» os demais a irem de «férias» à terra.

Onde d’antes nada havia,
Se atavia um, querendo,
e tendo por teimosia.

Que bom!

Ficam de «férias», libertos de todas aqueles que sempre “ocupam” a cidade durante o ano inteiro, arrogando-se dos inconvenientes da enchente da cidade! Afinal são eles que a enchem! porque quando vão a «férias» à «Terra» a cidade fica desenchida, vazia! ficam os demais de férias! Que bom a cidade de férias, com os que foram de «férias» à «Terra»!

Os visionários sem pares,
d’ares nos pés ao chão tocaram.
Espetaram o mastro rés,
ao invés, no campo ficaram.

Aqui não se vai de férias! aqui não se vai a casa! Quem veio, deixou, perdeu a casa lá algures, não sabe mais onde! Os que sabem, os que ainda se lembram, ainda não chegaram! Estão ainda de viagem, de lá para cá! Ninguém sabem, nem eles, se algum dia chegarão, embora tenham já partido, embora tenham já saído!

Ideia louca, visionária
ária disfarçada de frade.
Frade louco é mais válido
que cálido louco em frade.

Ao longo do tempo de escrita, o meu outro eu, ia «Otenostando»(1)! Nem eu sabia o que estava acontecendo, aparecendo escrito!

Como de loucos todos temos um pouco, ou qual a diferença entre louco e visionário! Este, o visionário, só deixa de ser louco quando acontece acontecer a loucura da qual foi acusado! Os acusadores, de tão importantes que foram, nem se sabe quem, quais e ou onde andam, se é que andaram alguma vez!
De tão loucos, outros loucos correram a levar a noticia, para lugares onde não havia a quem dizerem, não havia quem os ouvir! Louco o que falou, louco o que correu a levar a noticia!
Um morreu e não soube o que lhe fizeram da sua fala.
Além de louco era um visionário sem tino!
Outro correu tanto, picado, mordido, quiçá até comido, diz-se e morreu!
De tudo sobrou o que se falou e se disse!
Faltou fazer!
Outro quis acabar o discurso iniciado!
Outro quis acabar «fazendo», «construindo» a noticia!
Qual Hermes construinte, fez, correndo não a maratona, mas o Planalto, e tal como o Grego, teve que morrer. Cumprira com a incumbência!
Aqui como lá, ninguém vai a casa de férias!
Aqui como lá, ninguém vai de férias a casa!
Primeiro, porque os que cá chegaram, a casa deles é cá!
Segundo, porque a féria é feita todos as semanas.
Porque féria é a jornada! O que se ganha todos os dias de jorna.
Porque uma terra que é a todo o instante pensada, construí-da, resgatada, não foi parida, nem tão pouco semeada, mas escondida, nas entrelinhas do tempo.
Porque nenhum Deus, em Olimpo algum, por mais antigo ou «velho» que tenha sido o Deus que soprou o vento de ideias de noticias, ou da execução terá mais vontade sobre ela. Terá que viver com ela sempre, mesmo que não queira.
Vómito algum, de Deus algum, é parável ou interrompido, por muito azedo que ele seja!
Enquanto isto, eu «Otenosava»! Eu escrevia um «Otenos».


*(1) «Otenotar: fazer soneto ao contrário, do fim para o principio, começando pelo último terno e acabando no primeiro quarteto!

*(1) «Otenotar: fazer soneto ao contrário, do fim para o principio, começando pelo último terno e acabando no primeiro quarteto!


Otenos

Brasília

Não parida, mas pensada.
Não semeada, mas construída.
Não escondida, mas resgatada.

Onde d’antes nada havia,
se atavia um querendo,
e tendo por teimosia.

Os visionários sem pares,
d’ares nos pés ao chão tocaram.
Espetaram o mastro rés,
ao invés, no campo ficaram.

Ideia louca, visionária
ária disfarçada de frade.
Frade louco é mais válido
que cálido louco em frade.

Faltará aqui o que resta de Hermes de Alexandria!
Pois se falta, façamo-lo, leiamo-lo!

Vadium, vadiando numa noite por nada, aos 10 de Junho de 2011, em Brasília!
Podia ser noutro lugar, mas foi aqui e cá!

Texto escrito em português não danificado

1 comentário:

Jorge da Paz Rodrigues disse...

Bem pensado Vadium!

Só tive alguma dificuldade no "otenos", mas hei-de habituar-me!

Quanto aos "sem terra" da cidade, cá pelo Brasil resolveram ká há anos o problema quando criaram o MST (Movimento dos sem terra), ocupando terras não vigiadas pelos dono.

E quando ao mais sugiro ao meu amigo que, quando em Portugal e mormente em Lisboa, experiente fazer férias em Agosto na cidade. Vai ver que beleza, por quase todos terem ido de f+erias para a "Terra", Algarve e estrangeiro.

Um abraço